![]() • MOSTRA HOMENAGEM A LUIZ SÉRGIO PERSON |
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O PROFESSOR PERSON Eu prestei vestibular na Escola Superior de Cinema São Luiz, a primeira de nível universitário de São Paulo, em 1965, por estímulo do amigo João Callegaro que havia sido um dos alunos da classe pioneira, colega de Ana Carolina, Carlos Ebert, Paulo Rufino e Fábio Porchat. Como responsável pela segunda turma, da qual fiz parte, foi designado o recém contratado professor Luis Sérgio Person, que na época já tinha o prestigio de cineasta consolidado graças a filmes antológicos como SÃO PAULO SOCIEDADE ANÔNIMA e O CASO DOS IRMÃOS NAVES. Se nos tínhamos Person, a turma de Callegaro tinha o "apadrinhamento" de Roberto Santos. Mas ambas a turmas "socializavam" o privilégio de assistir aulas de intelectuais de ponta como Paulo Emílio Salles Gomes, Anatol Rosenfeld, Mario Chamie e Décio Pignatari. As aulas de Person seguiam um certo protocolo. Ele sentava-se na sua mesa, à frente dos 60 alunos, abria o livro "O Processo De Criação No Cinema" (Film: the Creative Process), do dramaturgo e roteirista americano John Howard Lawson - marxista assumido que foi presidente do Screen Writers Guild [1933-1934] e uma dos dez da "lista negra" do maccartismo - e durante uma hora e pouco lia em voz alta um dos capítulos. Na seqüência, comentava o texto e abria para a discussão coletiva. Às vezes escolhia um filme que estivesse em cartaz nos cinemas e nos obrigava a analisá-lo sobre o prisma da mise-en-scène. Assim como Paulo Emílio nos tinha obrigado a ler duas vezes o livro e a assistir oito vezes o filme VIDAS SECAS (e dedicado uma aula inteira para falar unicamente a respeito de um personagem central da obra de Graciliano Ramos que foi abolido do filme de Nelson Pereira dos Santos), Person nos impôs sete revisões de A PASSAGEIRA, o último e inconcluso filme do polonês Andrzej Munk. A obsessão de Person por este histórico diretor não deixa de ter seu mistério, já que ambos morreram em desastres de automóvel. Um dia Person resolveu quebrar o protocolo e testar a percepção e os preconceitos de seus discípulos. Mandou instalar um projetor na sala e apareceu acompanhado de um homem barbudo, meio esquisito, com umas unhas enormes. Foi logo dizendo: "Agora vocês vão ver cinema de verdade!". E para espanto de, no mínimo, 56 aspirantes a cineastas foi exibido À MEIA-NOITE LEVAREI SUA ALMA. Quando as luzes voltaram a acender, Person não deixou ninguém sair da sala. Durante mais de meia hora fez um discurso laudatório e superlativo enaltecendo a criatividade e ousadia de seu convidado. Naquele dia descobri que eu não era o único maluco que havia se encantado com José Mojica Marins, quando entrei no cine Art Palacio, lá pelo idos de 65, fugindo da polícia política e das bombas de gás lacrimogêneo e me deparando - por puro acaso - com aquele filme insólito, blasfemo e brasileiro até a medula. Rever o filme, com o aval de Person e mais três ou quatro colegas (tão esquisitos quanto eu) me deu a certeza que aquele era o cinema que me interessava. Talvez por isso, Luis Sérgio Person tenha colocado na cabeça que eu devia ser diretor de cinema; e não roteirista profissional como eu planejava. Insistiu tanto nesta idéia que resolveu "bancar" meu primeiro filme; o curta metragem ESTA RUA TÃO AUGUSTA. Aprendi também com Person que cinema não se ensina a ninguém, e que a função dos bons cursos é juntar identidades, incitar "guetos", parcerias; estimular a visão do maior número possível de filmes (de preferência, sem legendas) e, sobretudo, nunca esquecer que o cinema "é o conglomerado de todas as artes". No período da São Luiz, que durou tão pouco tempo, fui instigado a concluir um curso de história da arte, reler vários livros, ver todo os espetáculos importantes do período e (graças a Rosenfeld) ler todo o teatro épico. É certo que as preciosas aulas de Person e a minha gulodice cultural não renderam frutos imediatos - além dos meus primeiros filmes serem uma merda, naquela época eu estava mais interessado em "cair na vida" - mas em 1974, depois de passar quase cinco anos sem falar de/com seu discípulo relapso, Person finalmente aceitou a recomendação de Paulo Emílio Salles Gomes e foi assistir (escondido) LILIAN M., RELATÓRIO COMFIDENCIAL, no cine Marachá - que, por acaso ficava na frente do seu teatro, o Auditório Augusta. Soube, por um amigo em comum, que ele reviu o filme três vezes e ainda comentou à "boca pequena": "Eu até que não estava enganado. O garoto é do ramo!". Carlos Reichenbach PS - Uma das descobertas mais intrigantes que tive, após a morte de Person, foi o fato dele ter tido aulas com Valério Zurlini, um dos meus cineastas de referência, no Centro Sperimentale, em Roma. |
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