Acontece neste ano o que se esperava dentro da ordem natural das coisas: a homenagem dos estudantes a João Luiz Vieira. Eis a escolha certa, pois são raros os docentes que combinam as qualidades de pesquisador com a vocação ao ensino tão notável e tão bem conduzida.

João Luiz é um professor em tempo integral, e não falo aqui de sua condição funcional na UFF, mas de sua postura de vida, na Universidade, na Cinemateca, no Centro Cultural, na convivência com alunos, colegas e amigos. Neste sentido, somos todos beneficiários de seu estilo de ser que não se fez da noite para o dia, pois traz, em cada intervenção, a marca de uma formação singular. Esta une, à cinefilia, o interesse por todas as formas de expressão, notadamente as artes visuais, com quem desde cedo ele cultivou uma relação familiar, na figura do estudante de pintura e gravura que soube capturar as lições do ambiente especial criado pelo neo-concretismo e pelas manifestações pop dos anos 60, complementando as iniciações na Cinemateca do MAM. Assim se definiu o seu trânsito especial com o imaginário da cultura contemporânea e com o cinema, terreno que abraçou como aluno da UFF e, mais tarde, como professor, quando já completava sua formação no programa de doutorado da Universidade de Nova York.

Evoco as experiências que construíram essa desenvoltura bem própria a quem supera o bem fazer do professor aplicado e se instala na condição do guia seguro, capaz da exposição clara que torna estilo a leveza, esta virtude dos mestres que fazem do ensinar e aprender um motivo de prazer, e não apenas uma tarefa. Como exímio narrador, João Luiz sabe criar o ponto de vista que torna sedutora a sua história; como professor exemplar, ele exibe um talento especial, tão decisivo quanto o saber que mobiliza no diálogo com a classe: o de despertar a paixão pelo cinema e pelas artes, o de fazer da aula algo que não se reduz à explicação de um tema, mas que se compõe, para o aluno, como uma experiência de encanto e prazer pela descoberta, um momento de conversão que se projeta por toda a vida.

Quem conhece João Luiz sabe como se manifesta no cotidiano essa paixão pelo cinema e pela cultura. Ao lado do professor, ela destaca o pesquisador de horizonte aberto, original em sua reflexão sobre o cinema brasileiro, alimentado por uma contínua indagação teórica e pelo passeio histórico admirável em sua geografia e dimensões (estética, cultural). Seu perfil internacional de atuação envolve projetos de ponta, como o recente estudo da questão do corpo no cinema, e orienta uma extensa produção já publicada em vários idiomas. Enfim, uma contribuição notável.

Ismail Xavier (Crítico de cinema e professor na Escola de Comunicação e Artes da USP)

Assim como é tradição da Mostra Homenagem, o Festival Brasileiro de Cinema Universitário 2004 escolheu uma pessoa dedicada ao ensino de Cinema em nossas Escolas, no caso na Universidade Federal Fluminense. O professor João Luis Vieira foi, de certa forma, o responsável por nos abrir um novo mundo de possibilidades cinematográficas; calouros que ao chegarem no curso de Cinema, tiveram contato com a desconstrução da linguagem, fascinados pelo humor crítico de João. O Festival propôs a escolha de oito filmes da História do Cinema Mundial que todo estudante deve assistir e João aceitou com prazer essa difícil tarefa. Abaixo a programação comentada por nosso homenageado.

Quinta, 27 de maio, 18h00 . CCBB Sala de Cinema

VIDA DE CASADO MESHI
35mm/16mm, 1951, p&b, 97min, Japão

Direção: Mikio Naruse. Roteiro: Toshirô Ide e Sumie Tanaka, baseado no romance de Fumiko Hayashi. Produção: Sanwzumi Fujimoto. Fotografia: Masao Tamai. Música: Fumio Hayasaka. Produtora: Toho. Elenco: Ken Uehara, Satsuko Hara, Yukiko Shimazaki, Yoko Sugimura, Akiko Kazami, Kumeko Urabe, Akira Ooizumi e Hiroshi Nihon'yanagi.

Obra-prima de um outro mestre incontestável do período de ouro do cinema japonês, Naruse é preciso na construção e observação do detalhe. Especialmente quando tem em mãos material tão precioso quanto o corpo, o gestual, os olhares e o sorriso quase sempre ambíguo de Setsuko Hara. Cansada da rotina, ela senta num degrau de sua minúscula cozinha, de costas para a câmera. Está tudo ali - o mundo fechado, horizontes estreitos, o peso de uma rotina de desencanto num pós-guerra feito apenas de promessas. Mas também estão a resistência e o estoicismo para seguir adiante, mesmo que isso signifique voltar para a casa e para o marido, com uma ponta de tristeza e um meio sorriso enigmático no rosto.

Sexta, 28 de maio, 18h00 . CCBB Sala de Cinema

AVISO AOS NAVEGANTES
35mm, 1950, p&b, 90min, Brasil

Direção: Watson Macedo, Roteiro: Alinor Azevedo, Paulo Machado e Watson Macedo. Produção: Paulo Machado e Décio Tinoco. Fotografia: Edgar Brasil. Montagem: Waldemar Noya e Watson Macedo. Música: Aloysio Vianna. Números Musicais: Emilinha Borba, Ivon Cury, Adelaide Chiozzo, Francisco Carlos, Jorge Goulart e Ruy Rey. Produtora: Atlântida Cinematográfica. Elenco: Oscarito, Grande Otelo, Anselmo Duarte, Eliana, José Lewgoy, Zezé Macedo, Sérgio de Oliveira, Glauce Rocha, Mara Rúbia, Emilinha Borba, entre outros.

A quintessência do estrelismo da Atlântida em ação, romance, confusão e muita música. Não dá para esquecer jamais a beleza jovial da dupla Eliana - Anselmo Duarte, a malandragem de Otelo falseando o mesmo xilique retomado em Macunaíma vinte anos depois; Oscarito, indecente, fantasiado de bebê-chorão ou como um "toureiro de Cascadura", celebrando a esperteza suburbana e popular; o tomara que chova três dias sem parar, de Emilinha Borba, o acordeon de Adelaide Chiozzo. E o que dizer dos olhares ameaçadores diretamente para a câmera (e para o espectador) do vilão José Lewgoy? Foi com esta e outras comédias cariocas do período que aprendi a ver e a gostar de cinema.

Sábado, 29 de maio, 18h00 . CCBB Sala de Cinema

O DESPREZO LE MEPRIS
35mm, 1963, cor, 103min, França/ Itália

Direção: Jean-Luc Godard. Roteiro: Jean-Luc Godard, baseado no romance Il Desprezzo de Alberto Moravia. Produção: Carlo Ponti, Georges de Beauregard e Joseph E. Levine. Fotografia: Raoul Coutard. Montagem: Agnès Guillemot e Lila Lakshmanan. Música: Georges Delerue. Produtora: Champion Films, Compagnia Cinematografica Champion, Concordia, Films Concordia e Rome Paris Films. Elenco: Brigitte Bardot, Michel Piccoli, Jack Palance, Giorgia Moll, Fritz Lang, Jean-Luc Godard, Linda Véras e Raul Coutard.

Lembro que uma faixa enorme anunciava o filme em frente à entrada da galeria do Cineac-Trianon, na Rio Branco: Brigitte Bardot inteiramente nua! Como o filme só foi distribuído aqui no final dos anos 60, naquela altura, além de BB eu já sabia muito bem quem era Godard. Não era o Paissandu, claro, mas mesmo assim, o filme nunca me enganou e será sempre um exemplo maior da (auto) reflexão sobre o cinema, em seu cruzamento com a arte e a indústria, o lugar do espectador, as relações com a literatura, entre tantos outros temas e provocações. De quebra, um apuradíssimo sentido de composição e grafismo, além da movimentação da câmera, em plano-seqüência, simultanemante preenchendo e construindo vazios e separações entre os personagens que habitam o vasto e épico espaço do formato panorâmico.

Domingo, 30 de maio, 18h00 . CCBB Sala de Cinema

MEMÓRIAS DO SUBDESENVOLVIMENTO MEMORIAS DEL SUBDESARROLLO
35mm, 1968, p&b, 97min, Cuba

Direção: Tomás Gutierrez Alea. Roteiro: Tomás Gutierrez Alea e Edmundo Desnoes, baseado no romance homônimo de Edmundo Desnoes. Fotografia: Ramón F. Suárez. Montagem: Nelson Rodriguez. Música: Leo Brower. Produtora: Icaic, Cuba. Elenco: Sergio Corrieri, Daysi Granados, Eslinda Nuñez, Beatríz Pochora, Gilda Hernández, René de la Cruz, Omar Valdés, Eduardo Casado Revueltas, Rafael Sosa, Ofelia González, Yolanda Farr, José Gil abad, Daniel Jordán e Luis López.

Mais um excelente exemplo do contágio entre cinema e literatura, palavra e imagem: da janela de seu apartamento burguês, o intelectual e alienado Sérgio (o ator Sérgio Corrieri) observa e tenta entender o que se passa na Havana pós-revolucionária. O olhar, através de um binóculo, é acompanhado pela voz off do personagem, num monólogo interior que amarra o espectador mais nas dúvidas do que nas (poucas) certezas desse personagem. Partindo do texto de Edmundo Desnoes, entretanto, Alea abre espaço para incluir também a sua visão, além de criar silêncios para a reflexão do espectador, num cruzamento de olhares e pontos-de-vista conflitantes, que transforma essa poderosa estrutura de linguagem cinematográfica – a do plano ponto-de-vista – numa espécie de voyeurismo político, distante de sua clássica utilização em Janela indiscreta, do mestre Hitchcock.

Quinta, 27 de maio, 18h00 . CCBB Sala de Vídeo

RASTROS DE ÓDIO THE SEARCHERS
35mm/ DVD, 1956, cor, 125min, EUA

Direção: John Ford. Roteiro: Frank S. Nugent. Produção: C. V. Whitney, Patrick Ford e Merian C. Cooper. Fotografia: Winton C. Hoch. Montagem: Jack Murray. Música: Stan Jones e Max Steiner.

Produtora: Warner Brothers. Elenco: John Wayne, Jeffrey Hunter, Vera Miles, Ward Bond, Natalie Wood, John Qualen, Hank Worden, Olive Carey, Henry Brandon, Ken Curtis e Harry Carey.

Complementando sua tão precisa e elogiada estrutura circular--a narrativa começa, depois dos créditos de abertura, com uma porta que se abre para uma típica paisagem semi-desértica de faroeste, e termina com uma outra porta que se fecha - toda a história é emoldurada por uma tela negra que é, no fundo, o espaço da família, da civilização do mito de um jardim no deserto. Será mesmo? Trata-se de uma visão surpreendentemente pessimista para um diretor que ajudou a construir um gênero cinematográfico e também uma história para o seu país, sempre nesse embate entre civilização e barbárie. Esses primeiros dois, três minutos não deixam dúvidas de que estamos diante de uma obra prima, do trabalho de um grande diretor.

Sexta, 28 de maio, 18h00 . CCBB Sala de Vídeo

UM CORPO QUE CAI VERTIGO
35mm/ DVD, 1958, cor, 128min, EUA

Sinopse:
Direção: Alfred Hitchcock. Roteiro: Alec Coppel e Samuel A. Taylor. Produção: Alfred Hitchcock e Herbert Coleman. Fotografia: Robert Burks. Montagem: George Tomasini. Música: Bernard Herrmann. Produtora: Alfred J. Hitchcock Productions e Paramount. Elenco: James Stewart, Kim Novak, Barbara Bel Geddes, Tom Helmore e Henry Jones .

De novo o olhar em questão, num texto cinematográfico também enviesadamente reflexivo: ao contrário do Godard de O desprezo, que expõe a câmera e os mecanismos de construção da representação para o espectador, Hitchcock (e o cinema clássico) procuram esconder o dispositivo numa vertigem que define o ponto-de-vista e o lugar do espectador, corporifica um simulacro e orquestra o desejo das personagens em sintonia com o nosso. Scottie, o detetive acrofóbico, se apaixona por uma imagem da mulher que passa em sua frente, se detem o tempo necessário para que ele (e nós) percebamos o rosto, o penteado, o porte. O percurso, entretanto, caminha para uma grande ironia e frustração, embalados pela inspirada citação musical aos amantes Tristão e Isolda, feita pelo grande Bernard Hermann.

Sábado, 29 de maio, 18h00 . CCBB Sala de Vídeo

MACUNAÍMA
35mm/ DVD, 1969, cor, 108min, Brasil

Direção: Joaquim Pedro de Andrade. Roteiro: Joaquim Pedro de Andrade, baseado no livro homônimo de Mário de Andrade. Fotografia: Guido Cosulich e Affonso Beato. Montagem: Eduardo Escorel. Música: Jards Macalé, Orestes Barbosa, Silvio Caldas e Heitor Villa-Lobos. Produtora: Filmes do Serro, Grupo Filmes e Condor Filmes. Elenco: Grande Otelo, Paulo José, Dina Sfat, Milton Gonçalves, Jardel Filho, Rodolfo Arena, Joana Fomm, Maria do Rosário, Hugo Carvana, Wilza Carla, Zezé Macedo e Maria Lúcia Dahl.

Exemplo maior da teia intertextual que articula o cinema, e de uma metodologia produtiva na adaptação da literatura. A cor exuberante, os adereços, a cenografia, a expressão e movimentação de atores, o uso da música, narrativa e narração se fundem organicamente de tal maneira a produzir um resultado ao mesmo tempo ímpar e dentro de uma tradição importante do cinema brasileiro. Para além da comédia, da revisão da chanchada, de uma estética da reciclagem, permanece a proposta de possibilidade de um cinema de alta voltagem crítica sem perder o prazer e o entretenimento. Os poderes subversivos do riso e do deboche aqui estão soltos, a mil.

Domingo, 30 de maio, 14h30 . CCBB Sala de Vídeo

SWIMMING POOL – À BEIRA DA PISCINA SWIMMING POOL
35mm/ DVD, 2003, cor, 103min, França/ Inglaterra

Direção: François Ozon. Roteiro: François Ozon e Emmanuéle Bernheim. Produção: Olivier Delbosc e Marc Missonnier. Fotografia: Yorick Le Saux. Montagem: Monica Coleman. Música: Philippe Rombi. Produtora: Fidelite Productions, Focus Features, Foz, France 2 Cinema, Gimages Films e Headforce. Elenco: Charlotte Rampling, Ludivine Sagnier, Charles Dance, Marc Favolle e Jean-Marie Lamour.

Apesar do final do filme entregar tudo e quase colocar seus méritos a rolar água abaixo (exigências de produtor? mania que um "cinema de arte" desenvolveu para adular uma platéia internacional, culta e chique, que gosta de se sentir "inteligente" ao final do filme?) ele consegue se sustentar enquanto fábula a respeito da criação literária, das ambiguidades entre a palavra e a imagem, entre o ponto-de-vista de quem vê e aquilo que acontece de verdade. Durante a projeção, a única realidade que existe é a nossa percepção, guiada por tudo aquilo que vemos e ouvimos no filme. Mas será que a verdade não vem sempre de onde estamos? Ozon caminha, com segurança, numa trilha já aberta por Rashomon e continuada por Boca de Ouro, entre alguns outros.